A importância do servir no processo de restauração do casamento

Para que serve o “servir”? Antes de tudo, é fundamental compreender o significado desse ato. O verdadeiro “servir” vai além do simples fazer algo para alguém. Ele ganha uma dimensão mais profunda, um caráter transcendente.

Servir corretamente implica não apenas atender às necessidades imediatas do outro, mas abrir espaço em nós mesmos para o amor genuíno, aquele que transforma tanto quem serve quanto quem é servido. Há também uma dimensão imanente nesse processo, que é a capacidade de tocar o outro de forma tão significativa que ele se sinta “constrangido” por esse cuidado, por esse gesto de amor despretensioso.

No entanto, esse servir precisa ser genuíno. Ele só é verdadeiro quando feito sem esperar nada em troca, com o objetivo de contribuir para o bem-estar ou até mesmo a recuperação emocional e espiritual do outro. Infelizmente, muitas vezes o “servir” é praticado com intenções egoístas: esperando reconhecimento, mudanças no comportamento do parceiro, ou um retorno imediato. Quando isso acontece, o verdadeiro constrangimento pelo amor não se concretiza.


Constranger com Amor na Prática

Um exemplo claro do que significa “constranger com amor” surgiu em uma consulta recente. Um casal enfrentava uma situação delicada: o marido havia traído a esposa e contraído uma doença sexualmente transmissível (DST), que acabou sendo transmitida para ela. Apesar disso, a esposa, em meio ao processo de perdoar e buscar a restauração do casamento, demonstrou um ato de cuidado genuíno.

Durante a consulta, o despertador do marido tocou para lembrá-lo de tomar o remédio. Ela prontamente se levantou e foi buscar o medicamento para ele. Então, destaquei o momento, dizendo:
“Veja o que está acontecendo: ela está cuidando de você, trazendo o remédio para tratar uma doença que você transmitiu a ela. Isso é amor em sua forma mais pura.”

O impacto dessa ação foi profundo. O marido chorou compulsivamente, sentindo-se verdadeiramente tocado e constrangido pelo cuidado e pela generosidade da esposa. O gesto dela foi despretensioso, sem exigências ou cobranças, o que abriu espaço para que ele fosse tocado pelo amor que ela demonstrava.

Esse momento revelou a essência do constrangimento por amor: o ato de servir com entrega e verdade, sem esperar retribuição, acaba por transformar a outra pessoa. Inclusive, esse homem, que até então se identificava como ateu, enviou uma mensagem posteriormente dizendo que desejava aprender a rezar por mim, em sinal de gratidão.


Os Desafios de Servir com Amor

Embora o servir seja poderoso, é importante reconhecer que nem sempre ele será fácil. Muitas vezes, a pessoa que serve pode se sentir cansada ou desanimada, especialmente em situações onde há resistência ou pouco reconhecimento. Por exemplo, uma paciente divorciada compartilhou que, em seu relacionamento, o marido tentou sair de casa várias vezes. O esforço dela para manter a união foi tão exaustivo que chegou ao ponto de perder a paciência.

O servir não é sinônimo de tolerar abusos ou negligências, mas sim de agir com amor e verdade, mesmo em situações difíceis. E, em alguns casos, é necessário buscar limites saudáveis e apoio para continuar nesse caminho de maneira equilibrada.


O verdadeiro servir é um convite ao amadurecimento emocional e relacional. Ele nos desafia a agir despretensiosamente, com generosidade e verdade, permitindo que o amor transforme a nós mesmos e àqueles ao nosso redor. Quando isso acontece, o “constranger com amor” deixa de ser apenas uma ideia e se torna uma força real, capaz de restaurar relacionamentos e inspirar mudanças genuínas.